18 de Março de 2012

Ártemis, Atena e Afrodite: o colorido ensurdecedor da vida. Criam os céus e o abismo profundo, atiram-nos violentamente para as margens da loucura ou para um "aqui e agora" demasiado real. Perdoa-me Senhora Atena, mas Ártemis e Afrodite são maiores em mim que a luz da manhã, mais fortes que a corrente violenta de um rio, que um mar profundo e escuro. Sou tão somente o campo de batalha destas Forças incomensuráveis que se digladiam, que me agitam as noites e os dias numa guerra total. Sem vontade, sem querer, sem fuga. E o corpo fica à mercê, nesta guerra Olímpica... Perdoa-me Atena, Senhora minha, mas a tua ave está a abandonar-me à sorte do arco e da flecha, à sorte da espuma do mar. E entre animais selvagens e vagas profundas, vou sobrevivendo.
Parei quando me disseste um dia
Com olhar de quem partia
A gente vê-se por aí
Pensei que pior não haveria
Prisioneiro desse dia
E de alguém que não esquecia
E acordei de uma noite mal dormida
De quem está de mal com a vida
Como foi que te perdi

Fiquei entre um beijo que faltava
E a saudade que apertava nesses dias que eram meus
Andei sobre o chão que já queimava
De tantas voltas que dava como alguém que se perdeu
E acordei de uma noite mal dormida
De quem está de mal com a vida
O que é que te aconteceu

Do perfeito ao imperfeito
A distância é tão igual
Se às vezes me falta o jeito
Estou longe de ser perfeito
Mas não me leves a mal

Andei por essa cidade fora
Como alguém que se apavora
Como alguém que se apavora

Esperei que a saudade fosse embora
Porque um homem quando chora
É mais por dentro que por fora

E parei descansei entre dois braços
Que sabiam os meus passos
É tão bom olhar pra ti

Se também tiveste medo
Nisso então estamos iguais
Se algum dia me perdeste
Sei que nunca me esqueceste

Não me percas nunca mais

http://www.youtube.com/watch?v=NAzvnCOXRwI

26 de Fevereiro de 2012

Vivemos num mundo de fantasmas. Efabulamos sobre tudo o que nos rodeia e que é significativo para nós, talvez como defesa contra toda a ausência, todo o vazio, todo o desamor. Sobre os que conhecemos e amamos, imaginamos que estão connosco sempre, inteiros, de alma plena. E vivemos em função dessa fábula. Damos tudo, o que somos e o que nos obrigamos a ser por eles, para que nos amem em igual grau, com igual paixão, com a mesma e total entrega. Não é defeito de personalidade, ou fraqueza de carácter, ou sequer insegurança pessoal. É querer desmesuradamente àqueles a quem entregámos o nosso mundo, simplesmente porque lhes queremos, porque os queremos presentes, porque amamos. É querer desmesurada e corajosamente a quem nasceu cobarde para a vida e para o amor. E quem vê o mundo com esta inocência que balança entre o amor total e a ausência de amor, sem meio-termo, não sabe viver entre a indiferença e os simulacros de um amor de oportunidade. Criamos fantasmas daqueles que não sabem amar com verdade, daqueles que só estão lá quando têm um tempinho livre, ou quando o aborrecimento da vida os obriga a procurar algo diferente, ou quando pensam que a nossa alma lhes foge para outras paragens por ter estado demasiado tempo à espera que deitassem sobre nós um olhar interessado. Amamos fantasmas. Porque queremos amar quem não existe. Simplesmente porque não sabemos viver de outra forma, senão amando. Amamos plenamente. Mas amamos mal, porque não há retorno.

19 de Janeiro de 2012

Tenho um problema com o cinzento. Não com algo específico que seja cinzento, mas com o cinzento em si, a cor. Não é bem um "não gostar", é uma incomodidade, um desconforto. Há coisas cinzentas que até são giras (não me ocorre nenhum exemplo, mas deve haver...). O problema é que o cinzento cansa-me, provoca-me aquela necessidade de fixar o olhar ao longe, de deixar os olhos morrer por ali, na mansidão do nada, no limite total de um pensamento que já não se pensa a si mesmo... e ficar. Porquê o cinzento? Não sei. Podia ser outra cor qualquer, uma que servisse de desculpa para fixar o olhar num limite inexistente, que permitisse quebrar a barreira do ter que estar aqui. Qualquer cor serve, qualquer cor é uma boa desculpa. Mas qualquer outra cor desperta-nos o olhar, faz-nos ver, chama-nos a atenção, a consciência, para o corpo que a suporta. Há um chamamento nas cores que nós, sem dar por isso, seguimos involuntariamente com os olhos como bocas sedentas à procura de fontes límpidas. O cinzento não é assim. O cinzento faz-nos esquecer tudo, não nos reclama para fora, mete-nos dentro de nós, bem lá no fundo onde já não existe nada, onde o olhar se pode ausentar eternamente, levado num vórtice tão acolhedor como um colo materno. O cinzento dá-nos a verdadeira dimensão de amor-ódio, querer ir e ficar, ser sol e escuridão, cantar e sufocar, dançar e morrer de exaustão. O cinzento é assim. Reclama-nos para o nada, para o pecado da ausência. E é tão sedutor na reclamação, que resistir-lhe exige mais, muito mais do que a réstia de vontade que conseguimos guardar no fundo de um olhar

13 de Janeiro de 2012

Pronto! Ok! Sexta-feira 13 NÃO é dia daquela coisa que me recuso a pronunciar (não por uma questão de superstição, mas por respeito ao velho ditado "não acredito em bruxas, mas que as há, há" - por acaso acredito em bruxas, das boas, claro!). E reitero a ideia de que sexta-feira 13 não é dia dessa coisa, porque tudo na vida tem aqueles dois lados de que Heraclito (um dos meus preferidos) tanto fala. Por isso, se pensarmos que os desgraçados dos Templários (vénia, se faz favor...) foram barbaramente assassinados nesse mesmo dia podemos, ainda assim, a séculos de distância, concluir que algum proveito foi tirado desse fatídico dia. E o proveito foi a concretização das palavras do Grão-Mestre da Ordem, Jacques DeMolay, que foram proferidas nas barbas (entenda-se o eufemismo do conceito "barbas") do rei Felipe IV e do papa Clemente V: "Papa Clemente, Rei Felipe, convoco-os ao Tribunal dos Céus antes que termine o ano, para que recebam vosso justo castigo. Malditos! Sereis malditos até treze gerações!" O facto é que, não se sabendo muito bem se as tais treze gerações foram mesmo amaldiçoadas, parece que tanto o rei como o papa fizeram a grande viagem antes do fim do ano. E esta conversa toda sobre uma história por demais conhecida de toda a gente, serve para quê? Antes de mais, como homenagem a homens que, pela sua coragem, preservaram durante séculos a sabedoria que haveria de dar origem ao mundo tal como hoje o conhecemos; depois, porque não seria completamente utópico, porque necessário, pensar em fazer renascer alguns ideais de cavalaria que faziam de um homem um Homem; ainda, porque isto de acreditar em toda a verborreia associada a teorias catastróficas de má sorte, fim de mundo e outras tretas que tais, é produto de uma cultura mainstream decadente, que serve de estratégia de diversão numa guerra de contra-informação; finalmente, porque aqueles que não seguem o calendário gregoriano têm sérias dificuldades em "ter azar na sexta-feira treze", ou "morrer por imposição de profecias no próximo 21 de Dezembro"! (por favor, enviem calendários para a China, para a Índia, para Israel....)
Resumindo, esta sexta-feira foi óptima, correu muito bem (eu sei que ainda não passou a meia-noite, mas... "give me a break"!). As que se seguem, até poderão ter aspectos negativos, mas esta foi EXCELENTE! I rest my case

3 de Outubro de 2011

o que vem a seguir

Há coisas que nos aparecem na vida, como se...
Há coisas que não esperamos que aconteçam, ou que pensamos que até poderiam acontecer, mas fugimos delas, fazemos com que desapareçam no fundo de um pensamento.
Depois elas acontecem, aparecem à nossa frente, batem-nos na cara com violência.
Há coisas que nos acontecem, que nos obrigam a desligar um dos muitos fios que nos prendem à vida.

31 de Julho de 2011

leitura-para-os-que-dizem-conseguir-ler-mais-longe

Outrora, a nossa natureza não era como agora; era bem diferente. (...) Cada homem, no seu todo, era de forma arredondada, tinha dorso e flanco arredondados, quatro mãos, outras tantas pernas, duas faces exactamente iguais sobre um pescoço redondo e, nestas duas faces opostas, uma só cabeça, quatro orelhas, dois órgãos sexuais, e tudo o resto na mesma proporção. (...) Possuíam uma força e um vigor extraordinários e, como eram corajosos, decidiram escalar o céu e guerrear os deuses. (...) Em face a esta invasão, Zeus disse "Dividi-los-ei em duas partes". (...) Ora, depois de assim ter sido dividido o corpo, cada uma das partes, lamentando a outra metade, foi à procura dela e, abraçando-se e enlaçando-se umas às outras, no desejo de se fundirem numa só, iam morrendo de fome por inacção, pois nada queriam fazer umas sem as outras. (...)
(...) Cada um de nós é, por isso, como um símbolo, pois fomos cortados em dois (...). Assim, cada um procura a metade que lhe corresponde.

Platão,
O Banquete

6 de Julho de 2011

There are those who fail, there are those who fall,
There are those who will never win,
Then there are those who fight for the things they believe,
And these are men like you and me;

In my dream we walked, you and I to the shore
Leaving footprints by the sea,
And when there was just one set of prints in the sand,
That was when you carried me

http://www.youtube.com/watch?v=oqj9qwrytOE